Quando se olha os dados do terceiro setor no Brasil, um número salta aos olhos e contraria a imagem que muita gente faz de uma ONG: a grande maioria das organizações não tem sequer um empregado com carteira assinada. Não é uma ou outra entidade pequena — é a regra do setor.
Segundo a FASFIL 2023 do IBGE, publicada em dezembro de 2025, 85,6% das fundações privadas e associações sem fins lucrativos do país não têm nenhum empregado formal. Em números absolutos, são 510,6 mil organizações funcionando sem um único funcionário registrado.
Esse perfil não é uma curiosidade estatística: ele determina, na prática, como a gestão e a prestação de contas acontecem (ou deixam de acontecer) na imensa maioria das OSCs. Este texto explica o que o dado significa, por que ele importa e, principalmente, o que muda na rotina de quem toca uma organização pequena.
Um esclarecimento sobre o recorte. O dado vem da FASFIL (Estatísticas do Cadastro Central de Empresas, recorte das fundações privadas e associações sem fins lucrativos) do IBGE. É uma das duas contagens oficiais do setor — e ela difere da contagem do IPEA, que usa critério mais amplo. Como cada fonte conta de um jeito, explicamos a diferença em detalhe no texto sobre quantas OSCs existem no Brasil segundo IBGE e IPEA. Aqui, o foco é outro: o perfil de emprego e suas consequências.
O que os dados do terceiro setor no Brasil revelam sobre o porte das OSCs
O 85,6% não é um ponto fora da curva. Ele faz parte de um retrato consistente de um setor formado, na esmagadora maioria, por organizações minúsculas em termos de equipe formal.
| Porte (empregados formais) | Fatia das OSCs (FASFIL 2023) |
|---|---|
| Nenhum empregado formal | 85,6% |
| Menos de 5 assalariados | 93,3% |
| 100 ou mais assalariados | 0,7% |
Lendo a tabela de cima para baixo: nove em cada dez OSCs têm menos de cinco pessoas com carteira assinada, e menos de uma em cada cem chega a ter cem funcionários. O setor inteiro emprega formalmente cerca de 2,7 milhões de assalariados — mas eles estão concentrados naquela minoria de organizações de maior porte.
A leitura honesta desses dados é simples: o terceiro setor brasileiro funciona, em sua maior parte, com voluntários, dirigentes que acumulam funções e equipes mínimas. A pessoa que coordena o projeto é, com frequência, a mesma que capta recursos, organiza a agenda, responde e-mail e — quando chega a hora — presta contas ao órgão público parceiro.
Isso explica por que o voluntariado é a espinha dorsal de tantas entidades e por que a expressão "OSC sem funcionários" descreve, na verdade, o caso mais comum, não a exceção.
Por que ter pouca (ou nenhuma) equipe muda tudo na gestão
Aqui está o ponto que quase nunca aparece nas manchetes sobre os dados do terceiro setor: a lei não pergunta o tamanho da sua equipe.
As exigências de gestão de parcerias e de prestação de contas previstas no Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC — a Lei 13.019/2014) são as mesmas para a OSC de duas pessoas e para a de duzentas. O plano de trabalho precisa ser cumprido e comprovado; os recursos precisam transitar pela conta específica da parceria; cada despesa precisa estar vinculada a uma meta; os documentos precisam ser guardados por dez anos. Não existe uma "versão simplificada da prestação de contas para OSC pequena".
É aí que o perfil de emprego do setor se transforma em risco real. A organização grande tem um setor financeiro, talvez um jurídico, alguém dedicado só a parcerias. A OSC de equipe mínima tem que dar conta de tudo isso com as mesmas duas ou três pessoas que já fazem o trabalho-fim. As obrigações não encolhem na mesma proporção que a equipe.
A consequência é direta: quem tem equipe mínima precisa de processo e de ferramenta para não afundar na papelada. Quando a gestão depende de uma planilha que só uma pessoa entende e da memória de quem estava lá, a próxima troca de coordenador ou a próxima diligência do órgão público vira uma crise.
É justamente esse cenário — pouca gente, muita obrigação, processo manual — que um sistema de gestão de convênios como o Gestor de Convênios foi feito para resolver: reúne num painel único o status das parcerias e os prazos críticos de prestação de contas, usa IA para resumir prestações de contas e sugerir correções, e alerta sobre irregularidades cruzando os dados com a legislação aplicável. Aprofundamos esse raciocínio no texto sobre tecnologia na prestação de contas.
Equipe pequena + gestão manual = mais risco de glosa
Há uma equação silenciosa que pega muitas OSCs pequenas de surpresa.
Equipes reduzidas, sobrecarregadas e sem ferramenta cometem mais erros formais — uma data perdida, um comprovante que sumiu, uma despesa que ninguém registrou a qual meta atendia. E erro formal, na prestação de contas, é porta de entrada para a glosa — quando o órgão público rejeita uma despesa e exige o dinheiro de volta.
Não se trata de má-fé. Trata-se de capacidade operacional. Quando uma única pessoa precisa lembrar de prazos, juntar evidências de cada atividade, manter o extrato da conta específica em ordem e ainda tocar o projeto, alguma coisa escapa. E o que escapa costuma reaparecer meses depois, na análise das contas, quando já não dá para corrigir.
A boa notícia é que esse risco é gerenciável. Antes de cada entrega, vale rodar uma conferência item a item do que o órgão vai analisar — metas com evidência, despesas vinculadas, documentos guardados. Preparamos um checklist anti-glosa exatamente para isso: ele dá a uma equipe pequena a chance de revisar como se fosse um setor inteiro.
O que fazer quando a equipe é mínima: três orientações práticas
Reconhecer o perfil do setor não é desculpa para baixar a guarda — é o ponto de partida para uma gestão realista. Três movimentos ajudam qualquer OSC de equipe enxuta a não afundar.
1. Priorize. Com poucas mãos, nem tudo cabe ao mesmo tempo. Trate a prestação de contas como parte da execução, não como uma tarefa do final. Cada atividade que acontece já deve gerar sua evidência (lista de presença, foto, relatório) no mesmo dia — porque reconstituir isso depois, de memória, é o trabalho mais demorado e arriscado de toda a parceria.
2. Padronize. O maior inimigo da organização pequena é o conhecimento que mora na cabeça de uma só pessoa. Crie um jeito único de nomear documentos, organizar pastas e registrar despesas, e escreva isso em algum lugar. Quando o voluntário sai ou o coordenador troca, o processo continua. Padrão é o que permite que pouca gente entregue um resultado consistente.
3. Apoie-se em tecnologia. Aquilo que numa organização grande é tarefa de um setor inteiro, numa OSC pequena precisa ser tarefa de um sistema. Uma ferramenta que amarra despesa à meta, guarda os comprovantes e avisa dos prazos devolve à equipe o recurso mais escasso que ela tem: tempo. Não é sobre substituir gente — é sobre fazer a pouca gente que existe render como se fosse mais.
Priorizar, padronizar e usar tecnologia não elimina as obrigações legais. Mas redistribui o peso delas para que ele não recaia inteiro sobre as costas de uma ou duas pessoas.
Perguntas frequentes
Quantas OSCs no Brasil não têm funcionários?
Segundo a FASFIL 2023 do IBGE (publicada em dezembro de 2025), 85,6% das fundações privadas e associações sem fins lucrativos não têm nenhum empregado formal — cerca de 510,6 mil organizações. Além disso, 93,3% têm menos de cinco assalariados e apenas 0,7% têm cem ou mais.
OSC sem funcionário pode firmar parceria e receber recursos públicos?
Sim. Não ter empregados formais não impede uma OSC de firmar termo de colaboração ou de fomento e receber recursos. Mas as exigências de gestão e prestação de contas do MROSC são as mesmas de qualquer organização — não há versão simplificada por porte, o que torna processo e ferramenta essenciais para equipes pequenas.
Como o terceiro setor funciona com tão pouca gente registrada?
A maior parte das OSCs opera com voluntários, dirigentes que acumulam funções e equipes mínimas. O voluntariado e o acúmulo de funções sustentam a operação na imensa maioria das organizações, enquanto os cerca de 2,7 milhões de assalariados do setor se concentram na minoria de entidades de maior porte.
Por que organizações pequenas correm mais risco de glosa?
Porque equipes reduzidas e sobrecarregadas, sem ferramenta de apoio, cometem mais erros formais — prazos perdidos, comprovantes extraviados, despesas sem vínculo claro com as metas. Esses erros são a principal porta de entrada para a glosa, a rejeição de despesas com exigência de devolução do dinheiro.
